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Exposição Actual

06/04/2021 - 24/10/2021

Um galo sozinho não tece uma manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã, parte de um longo diálogo sobre ideias de colaboração, de troca, de resiliência, mas acima de tudo – tempo.
Não há como escapar em como o tempo se tornou, mais do que nunca, elemento central nas nossas vidas. A nossa profunda impotência face à sua inevitabilidade, está agora, mais do que nunca, exposta. Fomos, de repente, reduzidos a uma existência mais individual (mesmo quando rodeados de família ou amigos a viver sob o mesmo teto), e as tomadas de decisões passaram a concentrar-se nas tarefas mais básicas do dia-a-dia.

Ao pensar neste projeto anual e no que dele poderia resultar, muitas ideias foram e vieram, muitos falsos começos se interpuseram, foi-se adiando, adiando e adiando. Se há algo que, de facto, nunca nos deixou, foi a noção de tempo, mesmo que na sua forma mais abstrata, ora rápido ora lento, por vezes real e presente, ou na maior parte das vezes apenas omnipresente no nosso subconsciente. Cooperação e união foram sem dúvida outro lema ao qual nos agarramos, daí a escolha do título ser a primeira linha do belo poema Tecendo a Manhã de João Cabral de Melo Neto. Afinal, esta tem sido uma linha fundamental do Quetzal Art Centre em cada um dos seus projetos, desde o seu início há cinco anos atrás e por isso era absolutamente incontornável aqui também ao pensar esta série de exposições. Todos os trabalhos presentes nesta primeira interação entrelaçam-se entre noções profundas do Eu e, por outro lado, revelam o que mais fez falta nas nossas vidas por meses sem fim – o outro, ideias de união, a celebração da vida e, acima de tudo, poder simplesmente existir e saber que sem outros galos, uma manhã nunca estará bem tecida.

Aveline de Bruin
Luiza Teixeira de Freitas

Com trabalhos de Ericka Beckman | Sara Bichão | Hugo Canoilas | Mattia Denisse | Rita Ferreira | Henri Jacobs | Belen Uriel | Stephen Wilks.

 

 

Hugo Canoilas

Osmose é uma comissão de parede de Hugo Canoilas.

Departing from an idea to develop and produce traces of paintings on the wall as they happen in his own studio walls, and use them as non-rational maps where some imagery around his previous grotto project could be placed. The grotto was a project developed by Hugo Canoilas with Galeria Quadrado Azul, in Lisbon. Using part of the gallery’s basement floor, the grotto worked as a collective work and an experimental platform that seeked to create a community between a group of artists, the gallery and its audience. The wall he produced for Quetzal (2021), unfolds a map of already done interventions, historical associations, and many desires. The marks are made with high fluid acrylic paint on a thin canvas and water and the imagery is transferred (with a special water-based material) from digital prints into the wall. The way they are done creates a kind of camouflage or discovery game of the viewer, who seeks to discover among the wall-painting the hidden insertions.

Sara Bichão & Mattia Denisse

A prática artística de Sara Bichão tem o experimental, o plástico e o orgânico como fundamentais ao pensamento e desenvolvimento do seu trabalho. Há um ritmo que pontua cada escultura, cada desenho e a relação dos mesmos entre si. Além disso o seu processo de investigação tem também um conceito imaterial; o da memória. Que é transposto aos trabalhos através dos mais diversos materiais que usa, fazendo da sua fisicalidade uma evidência, num constante jogo de experimentalismo, explorando as capacidades corporais desses mesmo materiais com os quais trabalha.  Aqui, encontramos apresentadas, na sua maioria, um conjunto de obras criadas durante o período de isolamento que se viveu ao nível global no último ano e meio, durante o qual o conceito de tempo ganhou todo um novo significado: tempo para pensar, para encontrar, para experimentar. É deste momento de suspensão que surgem novas composições, novas cores, novos materiais, que embora contendo em si todas as características plásticas e visuais (já por si tão marcantes) do trabalho de Sara Bichão, acrescem a estas a influência do tempo que o isolamento trouxe. Os trabalhos acabam por ser uma espécie de auto-retratos desse momento, reflexos de um mergulho pessoal na infinidade dos dias.

O mesmo se sente nos trabalhos de Mattia Denisse, apresentados em diálogo com os trabalhos de Sara Bichão, Denisse, um artista multifacetado, com uma prática artística muito abrangente, apresenta um conjunto de reflexões sobre a ideia do auto-retrato. Produzidos sobre papel, todos no mesmo formato, vemos distorções de diferentes formas, onde ainda assim conseguimos encontrar ou reconhecer que cada um deles, direta ou indiretamente contêm alguma característica física do artista. Conceptualmente, Denisse interessa-se por uma investigação continua, independente do seu tempo, focada na simbologia e nos sistemas de linguagem. A sua pesquisa ganha forma maioritariamente através das técnicas gráficas do desenho, através das quais historiza cenas do quotidiano em ambientes híbridos entre o exterior e o interior, realidade e ficção. Nesta reflexão e decisão do artista em incluir-se na própria composição de uma forma nem sempre reconhecível, vemos o que são no fundo autorretratos sem retrato, se assim o podemos dizer.

Rita Ferreira

Rita Ferreira é uma jovem artista que se dedica à investigação da pintura pela pintura.  No encontro com as suas obras experienciamos a absorção pela cor, pela dimensão, pela maleabilidade de cada pincelada. Inicialmente abstratas, as imagens com as quais nos deparamos, rapidamente ganham outras formas, que frequentemente nos confundem em relação ao título que as acompanham. Na série de trabalhos apresentados nesta exposição, Rita Ferreira explora de forma inconsciente, a ideia de desfolhar uma flor, estendendo a ideia do gesto arquivístico no desdobramento de várias pinturas, que de certa forma nos sugerem a imensidade do seu processo criativo. Numa prática de gesto insistente e persistente, a artista consegue, a cada desenho, a cada pintura, demonstrar um pouco mais da forma como concretiza este quase “herbário” em permanente construção. As pinturas são inspiradas em plantas parasitas, que são parte do imaginário e da história da artista. Esta característica aliada à escala dos trabalhos, algo monumental, contribui também para que nos sintamos de certa forma engolidos por cada trabalho.

Belén Uriel & Henri Jacobs

A materialidade dos objetos e a sua relação com o espaço estão no centro do trabalho de Belén Uriel. Altamente escultóricas, as suas obras aludem a variados elementos – fragmentos arquitetônicos, objetos do dia a dia ou até mesmo partes do corpo humano, com os quais estabelecemos relações visuais, e que revelam essa plasticidade que os trabalhos transmitem. A delicadeza numa fragilidade por vezes dúbia e a particularidade na escolha da cor, são também características distintas e próprias da sua prática, assim como a destreza com que controla cada matéria escolhida. Nesta exposição apresentam-se uma série de esculturas compostas de objetos produzidos como moldes de cestos para a roupa, que servem de pedestais para guardanapos de pano, por sua vez, trabalhados individualmente como um “quase-origami”. A diversidade de cores usadas nos cestos é alusiva aos diferentes tons dos confettis de festas, e que aliada às inúmeras possibilidades de dobra dos guardanapos dá uma enorme riqueza formal ao conjunto de obras. As variadas formas de dobrar e de utilização do guardanapo de pano levam a imaginação para as tradicionais mesas burguesas e remetem ao convívio, à celebração, ao evento. Por sua vez os cestos de plástico associam-se à trivialidade do quotidiano de qualquer lar, retirando à composição final qualquer idealismo mais aristocrático que lhe queiramos atribuir.

Nesta mesma sala pode ver-se também trabalho de Henri Jacobs ‘Quatre Champs’ (Manhã, Tarde, Anoitecer e Noite). Quatro grandes tapeçarias formam uma paisagem, cada uma representativa de um momento do dia. Todas diferentes umas das outras não só na sua estética, mas no conceito que representam e que as caracterizam, assim como nas tonalidades que as compõem. Juntas originam uma perspetiva de campo, uma ideia de tempo, da passagem e dos ciclos do mesmo. A cor gradualmente torna-se mais escura ao longo dos quatro estágios, sendo que no fim, todos os campos, em horários diferentes do dia, oferecem uma visão única e rebaixamento.

Ericka Beckman

O filme Cinderela de Ericka Beckman, de 1986, é estruturado em torno de um jogo arcano repleto de alegorias. A personagem principal, Cinderela, passa por vários níveis de narrativa, deslocando-se em diferentes tipos de espaço representacional: digital versus real, escultural versus fílmico. Embora o trabalho de Beckman mostre claramente a vibração dos jogos de vídeo e do cinema dos anos 80, ele é ainda, trinta anos depois, muito moderno na sua forma e conteúdo.

Esta narrativa da história da Cinderela é um conto de fadas diferente, onde a personagem torna-se parte de um jogo que serve como um símbolo para as restrições da sociedade às mulheres. Neste, o papel principal é o de uma trabalhadora suada numa lareira, provocada pelo apito de uma torre de relógio azul abstrata, e por um companheiro empunhando um acordeão, este interpretado pelo artista Mike Kelley, até que finalmente é transformada numa princesa que enverga um vestido azul-esverdeado brilhante, que dança num mundo de jogo digital no qual tem três hipóteses de acabar com o príncipe. Depois de várias tentativas fracassadas, Cinderela sabe como vencer, mas já não está interessada no príncipe. Ericka Beckman remete assim para as questões ainda relevantes sobre a individualidade feminina numa era pós-industrial, lidando tanto com as antecipações convencionais de género quanto com o surgimento de sistemas virtuais.

CINDERELLA é o tratamento musical do conto de fadas. Eu separei a história e coloquei-a como um jogo mecânico, com uma série de repetições onde CINDERELLA é projetada para frente e para trás como uma bola de pingue-pongue, entre a lareira e o castelo. Ela nunca consegue satisfazer os requisitos do ‘Jogo da Cinderela’”. (Ericka Beckman, 1984)

O conjunto de impressões “O jogo da Cinderela 1-4”, 2015, é composto por quatro fotografias a cores que reúnem a Cinderela da vida real aos seus vários obstáculos – o coração, um castelo, um x flutuante, um robô que parece uma marionete – que flutuam sobre linhas gráficas desvanecendo em profundidade.

Stephen Wilks

Stephan Wilks é mais conhecido pelas suas performances, Animal Farm e Trojan Donkey. O fascínio pela iconografia antropomórfica, na qual características humanas são atribuídas aos animais, desempenha frequentemente um papel importante na prática do artista. Em Animal Farm, Wilks usa como base para o projeto a história satírica de George Orwell (1945) no universo humano-animal; organizou desfiles de rua, onde animais de tamanho surreal eram carregados em mãos por pessoas. Levantava-se o questionamento sobre a corrupção de ideais: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.”

O projeto do Trojan Donkey começou em Berlim com Wilks a carregar às costas um burro de peluche em tamanho real. O artista diz que sempre teve “o desejo de criar uma obra de arte itinerante – encontrar uma forma e uma ideia para um veículo ou embarcação autónoma, que se movesse por cidades e vivesse entre as pessoas – dentro e fora do espaço privado e público”. Depois disso, mais burros “nasceram”, viajaram por todo o mundo e ficaram com pessoas que, por sua vez, deram ao burro uma camada pessoal. Durante as viagens, as suas barrigas eram preenchidas com notas, fotografias, esboços, e daí o nome de burro trojan. Os encontros, as memórias, as realidades individuais são transportadas ao longo da continuidade da viagem. Os burros tornam-se mediadores e produtores de intersubjetividade social.

‘Carregar um burro nas costas’ diz respeito não só à gíria regional inglesa, como também ao humor negro, descrito pelo surrealista André Breton (1935). Mas há mais inspiração, na literatura, filmes e encontros quotidianos que de uma forma ou de outra foram essenciais para a história que Wilks criou com estes burros. Como animais, os burros são invariavelmente associados à pobreza, servidão, humildade, fardo, libido e opressão, por oposição à simbologia do cavalo, por exemplo, que evoca nobreza, sutileza e, mais significativamente, a projeção de poder e status. Carregar um burro é absurdo, mas ainda assim, a ideia remete para um ideal de reversão do Poder, que coloca o mundo de cabeça para baixo. Um belo gesto poético que dá à luz a um novo entendimento, diálogo e senso de conexão e comunidade.

O carrossel que é exibido no Quetzal Art Center simboliza os diferentes burros que viajaram pelo mundo. No dorso das estatuetas, eles movem-se numa escultura mecânica giratória que remete ao orrery, uma máquina astronómica do início do século XVIII que imitava a rotação dos planetas. Os burros no carrossel giram a ritmos diferentes de acordo com o tamanho dos respetivos equipamentos, refletindo assim a forma espontânea como os burros viajantes poderiam interagir com os outros.

Wilks diz: “Muitas vezes as pessoas perguntam-me quando o projeto do burro vai terminar, é um trabalho cumulativo e todo o tema das viagens dos burros continua a gerar novas ideias”. Daqui nasce a ideia de criar um novo burro em Portugal, feito com tecidos da região do Alentejo, que muitas vezes são usados ​​para fazer sacos que os burros por sua vez transportam. Este burro irá viajar a partir do outono de 2021 e vai se somar às histórias já contadas. Estamos já ansiosos para contar a nova jornada do Trojan Donkey.

 

PROGRAMA 2021-2022

Para o futuro, esperamos mostrar mais trabalhos nunca vistos da coleção da família, e fortalecer as nossas ligações com a cena artística portuguesa através da colaboração. Seguindo esta lógica, convidámos Luiza Teixeira de Freitas, curadora, que vive e trabalha em Lisboa, para ser a nossa curadora para 2021-2022, e trabalhar em conjunto com Aveline de Bruin no programa. Luiza já colaborou connosco no passado, mas mais do que isso tem sido uma amiga próxima e confidente ao longo dos anos.

Um galo sozinho não tece uma manhã é o título do projeto deste ano para o Quetzal Art Centre. Parte de um poema de João Cabral de Melo Neto, alude à importância do trabalho conjunto, da cooperação, do diálogo. Em conjunto, Aveline de Bruin e Luiza Teixeira de Freitas farão a curadoria de diversos projetos, exposições coletivas e apresentações individuais de artistas, procurando responder com sensibilidade a estes estranhos tempos que o mundo atravessa. Entrelaçando e permitindo que uma variedade de ideias exista paralelamente entre si, o objetivo é focar no presente, permitindo a descoberta, a colaboração e o encontro. Assim como no poema, acreditar que cada amanhecer nos traz uma nova oportunidade de o fazer.

Estou entusiasmada e desejosa por trabalhar com a Aveline. Já colaboramos no passado e por essa experiência sei o prazer que é, não apenas trabalhar com ela, mas também fazer parte de um projeto que permite que a arte aconteça num contexto tão especial e único, e que para além disso, permite que a arte saia dos centros urbanos e encontre caminho e espaço em localidades mais remotas e rurais. O nosso foco este ano vai ser maioritariamente o panorama português, e tentar refletir de uma forma mais abstrata e orgânica os tempos que vivemos. Estamos, como todas as outras pessoas no mundo, condicionados a tomar cada decisão à medida que avançamos, e é com essa responsabilidade em mente que construiremos um programa consciente e rigoroso.”

Luiza Teixeira de Freitas é uma curadora independente que vive e trabalha em Lisboa. Entre os vários projetos em que está envolvida destacam-se o trabalho de curadoria com coleções privadas, bem como o seu envolvimento com publicações independentes e livros de artista, tendo lançado a sua própria editora Taffimai em 2018. Embora viva em Portugal, trabalha frequentemente com projetos em São Paulo, Nova Iorque, Londres, Los Angeles e tem também uma forte ligação ao Médio Oriente.

Aveline de Bruin e Luiza Teixeira de Freitas (foto: Goncalo F. Santos)