Uma memória só pode ser experimentada num único sentido: retrospetivamente, ou pelo menos assim parece. Com Take a Memory, Barnas tenta romper com esta perceção linear da recordação. Ao olhar para a paisagem e para as colinas ondulantes da Vidigueira através das grandes janelas, a primeira linha do seu poema, Take a memory up the hill, desenhada no vidro, convida o visitante a tentar o impossível: experimentar uma memória na direção do futuro. Se a linguagem tem os seus limites, ela também concentra em si a capacidade de os ultrapassar. Através dela, e através da imaginação, o fisicamente impossível torna-se concebível.
Uma memória existe no espaço entre o concreto e o abstrato: entre o momento vivido e a sua recordação, que é sempre também uma interpretação, nunca a coisa em si. Tentamos agarrá-la, mas ela escapa-nos por entre os dedos. Ainda assim, não podemos dizer que uma memória seja apenas uma coisa ou outra. No espírito de Espinosa, tudo — uma ação, um pensamento, uma memória — é apenas uma expressão da única substância verdadeira da vida. Este movimento entre formas torna-se tangível à medida que se regressa da colina em direção ao espaço expositivo. Outra linha na janela pergunta: Do you remember? [Lembras-te?]
A obra de Barnas convida-nos a relacionar-nos cuidadosamente com as nossas memórias, a prestar atenção à forma como estas são formadas e continuamente transformadas. É uma breve resistência à fugacidade do tempo.
Curadoria: Aveline de Bruin
Take a Memory está em exposição no restaurante da Quinta do Quetzal
A exposição foi possível graças ao generoso apoio do Mondrian Fund.