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Marginalia: Escrevinhando nas Margens de Espinosa

11/04/2026 - 16/08/2026

Maria Barnas

Marginalia: Scribbling in the Margins of Spinoza

Com Marginalia: Scribbling in the Margins of Spinoza, Maria Barnas dialoga com outras obras da exposição Espinoza Regressa à Vidigueira e o seu contexto envolvente, ecoando a forma como Espinosa se relacionava com outros pensadores — literalmente escrevinhando nas margens dos seus livros. A contribuição de Barnas desdobra-se em dois trabalhos: The Speech e Take a Memory.

Curadoria: Aveline de Bruin
Textos: Anna Lillioja
Fotos: Lais Pereira
A exposição foi possível graças ao generoso apoio do Mondrian Fund

 

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The Speech (2017 - 2026)

No centro da sala, um microfone balança para a frente e para trás — ou será um altifalante? Ele fala. The floor is yours, someone says. Thank you, someone says, for the privilege of speaking. We’ll have glorious floors, yes nothing is beyond our reach. [O palco é teu, diz alguém. Obrigado, diz alguém, pelo privilégio de falar. Teremos palcos gloriosos, sim, nada está para além do nosso alcance.] O texto do poema de Barnas é uma reação a um discurso de Donald Trump em 2017, cujo ritmo e cadência permaneceram com ela. O que tornou aquelas palavras tão marcantes? Para seu desagrado, Barnas constatou que o redator do discurso utiliza técnicas poéticas, tão familiares para ela, para reforçar a sua mensagem. Ao substituir a palavra “futuro” por “palco”, ela procurou inicialmente expor a qualidade abstrata, quase vazia, da retórica. No entanto, essa substituição também produz outra coisa: um convite à fala.

Tal como Barnas, Espinosa preocupava-se profundamente com as condições da expressão individual e da liberdade de expressão — preocupação que ressoa ao longo de toda a exposição, incluindo em trabalhos como >>A thousand windows<< to >>The world of the Insane<< de Anri Sala, na parede contígua. The Speech enfatiza o nosso poder de falar, mas ao mesmo tempo encerra uma inquietação. Valores considerados radicais no tempo de Espinosa e mais tarde tidos como garantidos — a liberdade de expressão, da existência e identidade individuais, e de religião — voltam a estar sob pressão. Quase dez anos após a sua criação original, The Speech ganha uma nova urgência, surgindo Trump como uma das figuras mais visíveis de uma paisagem política cada vez mais despótica.

O microfone eleva-se ao nível da boca, como que aguardando uma resposta. Uma vez mais, a voz insiste: nothing is beyond our reach [nada está para além do nosso alcance]. Ficamos ali, a pensar numa resposta. Seremos capazes? Poetas e políticos podem recorrer às mesmas ferramentas retóricas — mas as nossas mensagens podem ainda não conseguir chegar uns aos outros. Falamos incessantemente, através de inúmeras plataformas. Mas continuaremos em diálogo, ou estamos apenas a lançar palavras para o vazio?

Take a Memory (2026)

Uma memória só pode ser experimentada num único sentido: retrospetivamente, ou pelo menos assim parece. Com Take a Memory, Barnas tenta romper com esta perceção linear da recordação. Ao olhar para a paisagem e para as colinas ondulantes da Vidigueira através das grandes janelas, a primeira linha do seu poema, Take a memory up the hill, desenhada no vidro, convida o visitante a tentar o impossível: experimentar uma memória na direção do futuro. Se a linguagem tem os seus limites, ela também concentra em si a capacidade de os ultrapassar. Através dela, e através da imaginação, o fisicamente impossível torna-se concebível.

Uma memória existe no espaço entre o concreto e o abstrato: entre o momento vivido e a sua recordação, que é sempre também uma interpretação, nunca a coisa em si. Tentamos agarrá-la, mas ela escapa-nos por entre os dedos. Ainda assim, não podemos dizer que uma memória seja apenas uma coisa ou outra. No espírito de Espinosa, tudo — uma ação, um pensamento, uma memória — é apenas uma expressão da única substância verdadeira da vida. Este movimento entre formas torna-se tangível à medida que se regressa da colina em direção ao espaço expositivo. Outra linha na janela pergunta: Do you remember? [Lembras-te?]

A obra de Barnas convida-nos a relacionar-nos cuidadosamente com as nossas memórias, a prestar atenção à forma como estas são formadas e continuamente transformadas. É uma breve resistência à fugacidade do tempo.

Maria Barnas

Maria Barnas é uma artista e poeta cujo trabalho se move fluidamente entre géneros, assumindo simultaneamente a forma de poema, escultura e instalação. Tal como Espinosa, resiste a categorizar os seus “seres”, preferindo abraçar uma continuidade de formas — um domínio em que tudo está ligado e emerge da mesma força vital.
Tal como acontece nesta exposição, o trabalho de Barnas procura trazer para o centro aquilo que normalmente permanece nas margens. Está também profundamente interessada em testar os limites da linguagem. A linguagem, sugere a artista, permanecerá sempre insuficiente como meio de expressar plenamente a vida, mas a própria tentativa tem valor. Para ela, a beleza mais verdadeira da arte reside em tornar visível o processo do seu devir: as tentativas, as hesitações, até os fracassos. Com esta insistência no processo, resiste a um mundo cada vez mais orientado pela eficiência e pelos resultados.

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