Truvadores - Parte I

05/09/2026 - 21/03/2027

Pedro Barateiro

Truvadors - Part I

No ano em que o Quetzal Art Center celebra o seu décimo aniversário, Truvadores, de Pedro Barateiro, inicia o seu percurso no Alentejo, onde se situa o ponto de partida deste projeto.

Concebido em torno das ideias de viagem, encontro, transmissão e diálogo, Truvadores explora a forma como histórias, conhecimento e memória circulam entre pessoas, lugares e gerações. O projeto inspira-se em Vicente Lusitano (c. 1520–1561), compositor, teórico musical e viajante nascido em Olivença, cuja vida e obra atravessaram fronteiras, línguas e culturas. Considerado o primeiro compositor negro publicado na Europa, Lusitano ocupa um lugar singular na história da música, apesar de ter permanecido largamente ausente das narrativas históricas dominantes. Reconhecido no seu tempo pelas suas sofisticadas composições polifónicas e pelos seus influentes escritos teóricos, Lusitano desafiou muitas das convenções musicais da sua época, contribuindo de forma significativa para os debates sobre composição e pedagogia musical do período renascentista. Através das viagens e do legado de Lusitano, Barateiro reflete sobre o movimento enquanto forma de conhecimento e sobre as vozes e histórias que permaneceram à margem dos relatos oficiais.

Pedro Barateiro (n. 1979, Almada, Portugal) tem desenvolvido uma prática interdisciplinar que abrange desenho, filme, escultura, performance e publicação. O seu trabalho investiga frequentemente a forma como as narrativas culturais, os imaginários políticos e a memória histórica são construídos, transmitidos e transformados ao longo do tempo. Através de formas poéticas e especulativas de contar histórias, Barateiro cria espaços onde as histórias pessoais e coletivas se cruzam, questionando sistemas de conhecimento estabelecidos e propondo, simultaneamente, formas alternativas de compreender o passado e imaginar o futuro. Em Truvadores, estas preocupações de longa data convergem na figura do trovador enquanto portador de memória, conhecimento e intercâmbio cultural entre territórios e gerações.

A figura do trovador encontra-se num estado de metamorfose contínua: por vezes humano, animal ou vegetal, percorre paisagens em transformação, atravessando geografias reais e imaginadas. Ao longo do caminho, histórias, sons e imagens são recolhidos e transformados em matéria poética. O resultado é um atlas sensorial, no qual as árvores conversam, os navios cantam e o próprio território emerge como interlocutor.

A exposição apresenta o capítulo inaugural do novo filme de animação de Barateiro, acompanhado por uma série de desenhos de grande escala que estabelecem um diálogo com a paisagem envolvente. Com início no Alentejo, onde a própria história de Lusitano tem origem, este primeiro capítulo inaugura uma viagem que continuará a desenrolar-se através de diferentes lugares, vozes e comunidades.

O projeto recorre também à Mão Guidoniana de Lusitano, um sistema histórico utilizado para o ensino e a transmissão da música. Para Barateiro, a mão torna-se um símbolo de transmissão e ligação, um gesto através do qual conhecimento, memória e experiência passam de uma pessoa para outra. Serve também como ponto de partida para uma reflexão sobre as dimensões sociais e políticas da ação coletiva e do intercâmbio cultural.

A exposição estrutura-se em torno de formas de encontro e intercâmbio. Uma longa mesa, com a forma de um rio, atravessa o espaço enquanto lugar de conversa, hospitalidade e reflexão coletiva. Neste sentido, Truvadores não se limita a contar uma história de viagem; cria as condições para o encontro. A cultura surge aqui como algo partilhado, transmitido e continuamente reformulado através do diálogo.

Assinalando simultaneamente um primeiro capítulo do projeto e o décimo aniversário do Quetzal Art Center, a exposição celebra as viagens que moldaram a instituição ao longo da última década, enquanto olha para aquelas que estão ainda por vir. À semelhança do próprio trovador, Truvadores convida-nos a abrandar o passo, a escutar atentamente e a imaginar novas formas de nos relacionarmos uns com os outros através das histórias, da memória e da experiência partilhada. Através da recuperação de histórias e vozes esquecidas, o projeto abre um espaço para a empatia, a reflexão crítica e a reconciliação cultural.

A exposição inaugura a 5 de Setembro de 2026, com uma performance de Lula Pena no Quetzal Art Center. Lula Pena é uma das vozes que escutamos na animação de Truvadores.

Com curadoria de Aveline de Bruin.

Truvadores, de Pedro Barateiro, é apoiado pela Évora_2027, Capital Europeia da Cultura.

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